Friday 20th October 2017,
Veterinário Fernando Ibanez

PROTEÇÃO ANIMAL – Por Fernando Ibañez

admin 12/05/2014 artigos No Comments
PROTEÇÃO ANIMAL – Por Fernando Ibañez

Recentemente, tenho conversado com várias pessoas que militam na área de proteção animal e refletido muito sobre o assunto.

Como médico veterinário, me considero um protetor animal; ou não teria dedicado os últimos 25 anos de minha vida a cuidar dos animais e preparar as pessoas para cuidarem deles como docente. Enxergo diferentes formas de atuar na proteção animal desenvolvidas há décadas, dependendo da inspiração ou das necessidades de cada comunidade.

Alguns pontos devem ser considerados, entretanto, para tentar propor uma forma de proteger os animais.

Algo de extrema importância é definir quais animais vamos proteger: animais de produção ou animais de companhia. Não pretendo aqui defender ou atacar o consumo de proteína de origem animal; defendo sim, independente de minha crença, que mesmo os animais de produção sejam tratados com dignidade e respeito. Também não vou me ater, em minhas colocações, sobre como se pode proporcionar algum grau de bem estar a um animal que será abatido para consumo; ou, mais além, que nasceu com o propósito de ser abatido para consumo. Deixo este tema para um outro momento.

Vou focar minhas propostas e argumentos nos animais ditos de companhia ou estimação. Aqui também uma primeira consideração é questionar porque as pessoas mantêm animais perto de si. Registros muito antigos, de pinturas em cavernas já retratam animais perto dos seres humanos.  Desde que o homem começou a viver em comunidade, trouxe para perto de si animais de estimação e companhia. Posso inferir que esta aproximação ocorreu por diversas razões que, eventualmente, variaram em importância ao longo dos séculos: proteção; calor; trabalho; ostentação; companhia e outros.

Um fato que deve ser fortemente considerado é que nas últimas décadas a humanidade tem passado por grandes e importantes transformações. A população urbana aumentou exponencialmente; o espaço para se morar diminuiu exponencialmente; o número de horas trabalhadas e despendidas na locomoção aumentou exponencialmente; o número de pessoas nas famílias diminuiu muito; o desenvolvimento e acesso à tecnologia fez com que as pessoas passem muito mais tempo trabalhando (mesmo em suas casas) e distantes dos convívares porque, eventualmente, não gostam de assistir ao mesmo programa de televisão.

Independente de qual ou quais tenham sido os motivos, o que se vê nos dias atuais é que os humanos mantêm uma relação de afeto muito grande com seus animais de estimação.

Casais que se separam e não têm filhos lutam, às vezes na justiça, pela posse do cão ou do gato. Crianças ficam doentes quando seus cães ou gatos morrem ou se perdem; ou, não raramente, são postos na rua pelos pais, por razões que mais tarde vou abordar. Filhos adotam o cão ou o gato que pertenciam à sua mãe ou a seu pai depois deles falecerem e espelham nesse cão ou gato o amor que pela mãe ou pai sentiam.

Girl with her dog lying down on grass.

Algumas pessoas vêem nos animais o conforto para a solidão por serem pessoas que trabalham muito; vivem nas grandes selvas de pedra; têm dificuldades de relacionamento; vivem longe das famílias pequenas ou qualquer outra razão.

O fato concreto é que independente da ou das causas, os animais passaram a ocupar um papel muito importante na sociedade atual.

Com esse grau de importância é de se imaginar que, para alguns, é um insulto presenciar tantos animais nas ruas, abandonados. E como forma de tentar minimizar esse desgosto, alguns dedicam suas vidas, as de suas famílias e todo seu dinheiro, a resgatar animais abandonados das ruas.

O tempo tem mostrado que os “abrigos” não resolvem o problema do abandono. Independentemente da espécie em questão, os abrigos não diminuem a ocorrência de um problema. Foi assim com os abrigos de tuberculosos que não diminuíram a incidência da doença; foi assim com os sanatórios, que não diminuíram a incidência dos distúrbios mentais; foi assim com os asilos, que não diminuíram as dificuldades da velhice; é assim com as prisões, que não diminuem o número de infrações e tem sido assim com os abrigos de animais que não estão controlando a questão do número de animais abandonados.

Concluo então, que se houver milhares de centenas de abrigos, ainda assim haverá outras centenas de milhões de cães e gatos abandonados.

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            Mas cuidar é preciso. E sim, precisamos orientar os bem aventurados que se dispõem a ter um abrigo, para que o façam da melhor forma possível. O primeiro passo tem que ser a conscientização de que ao ter um abrigo esta alma não vai ajudar ninguém mais do que a si mesma. Mas, já que tem um abrigo, deve tê-lo da melhor forma; com controle de entrada de animais, para que os novos não tragam enfermidades aos que já lá habitam; com limite de ocupação para que os graus de liberdade e bem estar sejam respeitados; com controle sanitário para que enfermidades não se desenvolvam dentro do abrigo e com limite de população, para que a vida dentro do abrigo não corra o risco de ser pior que fora dele, nas ruas.

Se ter um abrigo, ou milhares deles não vai ajudar, o que então ajudaria? Castrar os animais de rua? Pelo menos nos últimos 25 anos centenas de milhares, se não milhões de animais errantes foram castrados nos 4 cantos do Brasil. Pelas contas, não deveria mais haver animais capazes de se reproduzir nas ruas….. Mas o que se viu ao longo desses anos todos é que a população de animais de rua vem crescendo. E porque isso acontece?

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A população de animais de rua não cresce porque os que lá estão se reproduzem. O incremento da população de cães e gatos errantes é muito mais por causa da injeção de novos indivíduos a partir das casas do que de novos indivíduos nascidos nas ruas; assim, esterilizar os que vivem nas ruas pode ajudar; mas ajuda muito mais impedir o lançamento nas ruas de novos moradores.

E aí entra a proposta: fazer um programa integrado, multi-abordagem, de controle de animais errantes, mas que se foque no controle populacional dentro das casas; no controle sanitário e nos conceitos de posse responsável.

 

-      CONTROLE DE ANIMAIS ERRANTES E CONTROLE POPULACIONAL DENTRO DAS CASAS:

Como explicado anteriormente os animais errantes são, em sua maioria, provenientes das casas; não da reprodução dos animais que estão já soltos nas ruas. E como então os animais são lançados nas ruas?

Neste tópico do texto, por uma questão didática, serão considerados só aqueles animais que nascem indesejadamente nas casas.

Todo mundo já ouviu falar de alguém que tem uma cachorrinha que escapou e cruzou inadvertidamente com algum cão na rua; ou daquela que, em seu passeio diário (sozinha), cruzou inadvertidamente. O que fazer com os filhotes dessa ninhada não planejada? Um grande número desses animais acaba sendo abandonado nas ruas; outros serão adotados por pessoas ou famílias despreparadas; alguns outros serão comprados ou adotados por impulso, aumentando o número de animais sem lar ao longo do tempo.

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Outra situação muito frequente é a crença de que toda cadela ou gata precisa cruzar uma vez, pelo menos, para evitar o risco de algumas doenças. Isso é folclore! Infundado! Entretanto, acreditando que será bom para a saúde de seus animais os proprietários as colocam para cruzar e depois não têm o que fazer com os filhotes. Muitos deles acabam sendo abandonados nas ruas.

E como então poderíamos diminuir a população de animais nas ruas? Pelo simples ato de educar as pessoas. Levar informação correta; desmistificar lendas.

Animais que não são de criadores, que não são destinados a exposições ou competições devem ser castrados, esterilizados. Este ato, além de diminuir a quantidade de filhotes abandonados nas ruas contribui para a saúde dos cães e gatos.

Nas fêmeas a castração antes do primeiro cio diminui, nas cadelas, em 97% o risco de desenvolverem câncer de mama; abole a possibilidade de desenvolverem infecções uterinas (muito comuns nas cadelas) e anula a chance de desenvolverem câncer de ovários; também bastante frequentes.

Nos cães machos a castração antes da maturidade sexual (antes de começarem a levantar a perna para urinar) diminui a incidência de doenças prostáticas; diminui a intenção de marcar território e anula as chances de desenvolverem tumores testiculares.

Assim, castrar animais comprados ou adotados e que não vão ser destinados à reprodução pode contribuir drasticamente, ao longo de alguns anos, com a redução do número de animais errantes nas ruas.

A chipagem dos animais também é medida que pode ajudar na redução dos animais de rua. De quem é aquele cão passeando na rua? Onde ele mora? Quem é o seu tutor? Se houvesse chipagem de rotina dos animais, a identificação de seu criatório, seu tutor e seu endereço seria muito fácil; e, aliada a leis de controle e fiscalização, ajudaria na educação dos tutores, acionando-os quando seus animais fossem encontrados nas ruas vagando.

Mas e os animais que já estão nas ruas? Que fazer com eles?

Este é um assunto que poderia ser discutido exaustivamente e não resultaria em uma conclusão unânime. É fato que precisamos cuidar destes animais. Ter um programa de cuidados e adoção de animais errantes pode ajudar; manter um programa de controle sanitário destes animais, mesmo nas ruas, também pode ser eficaz. Há vários exemplos em diferentes comunidades, de ações que visam dar algum conforto aos animais errantes das ruas. Tratá-los de enfermidades que possuam; imunizá-los; castrá-los e desverminá-los  pode conferir algum grau de conforto mesmo morando na rua.

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Ajudar, com recursos de voluntários e do poder público, na manutenção de abrigos também pode conferir conforto a estes animais.

A idéia é que as duas ações ocorram simultaneamente: o controle dentro das casas, diminuindo o inchaço da população de cães abandonados e a manutenção de programas de sanidade e conforto para os que já estão nas ruas até que eles morram ou sejam adotados. O que não cabe e, definitivamente, não dá resultado é só insistir nos abrigos e controle dos animais que estão nas ruas sem interferir na fonte dos sem teto.

 

-      CONTROLE SANITÁRIO

Menos frequente mas não incomum é encontrar alguém que alega ter abandonado seu animal porque não conseguia mais vê-lo sofrendo e espera que alguma alma boa com mais posses vai compadecer e cuidar dele.

Para alguns pode parecer uma desculpa do tipo “lavo minhas mãos”, mas quem somos nós para julgar os sentimentos das outras pessoas?

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Se houver programas de assistência para os animais de pessoas carentes que não podem pagar pelo atendimento (hospitais gratuitos); programas de imunização e desverminação, o abandono motivado pela incapacidade de tratar do animal doente pode também ser mitigado.

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É fato que ter um ente que se gosta muito e que está doente e estar impossibilitado de cuidar dele incomoda. Muitas pessoas vêem no abandono a chance deste ente ser melhor cuidado.

Quantas pessoas não se ouve falar que internaram seus próprios pais e mães em asilos alegando que lá estarão melhores?

Assim, cabe ao poder público e às pessoas de bem, dispostas a contribuir para uma sociedade mais harmoniosa e sustentável, ajudar e zelar para que todos tenham condições mínimas de uma vida boa, digna. E isso inclui ter ao seu lado animais de estimação em bom estado de saúde.

A humanidade não vai deixar de ter animais de estimação. A máxima: se não tem condições não tenha um cão ou gato, não vale. Não valeria também para: se não tem condições não se case, ou não tenha filhos? E porque isso não vale?

Porque o homem é um ser sociável. Precisa de convívio, precisa de uma família; precisa de um grupo. E nos dias atuais, e desde que o mundo é mundo, os cães e gatos fazem parte desse grupo.

 

-      CONCEITOS DE POSSE RESPONSÁVEL

O que é posse responsável? O que significa ter responsabilidade sobre uma vida?

Se pensarmos que ao ter um animal de estimação retiramos dele a possibilidade do livre arbítrio; ou seja, de ir onde quer, de comer quando e o que quiser, entre outros, é essencial que suas exigências de conforto e bem estar sejam supridas.

Ter posse responsável sobre um animal significa que ele não pode passar frio, fome ou sede; que não pode ter medo ou ser aterrorizado; que não pode sofrer de enfermidades (mesmo aquelas incuráveis devem ser confortadas); que deve exercer seu comportamento livremente.

É como a responsabilidade do Estado sobre os cidadãos. Uma pessoa não pode passar frio, não pode ser aterrorizada, precisa de um teto, deve ter liberdade de ir e vir, tem que ter assistência médica e social.

Só que para os animais de estimação, cada lar é um Estado. Cada tutor é um governante; que tem que prover tudo isso a este animalzinho.

Abandonar um animal na rua é como se o governo extraditasse um cidadão!!! É inconstitucional!!! É proibido!!

Ter um animal e não dar a ele condições de vida é como se o governo interrompesse o fornecimento de água; acabasse com o saneamento; exterminasse todos os serviços públicos.

A maioria dos animais de estimação não escolheu as casas onde moram. As pessoas que nelas vivem decidiram adotar ou comprar um animal; ou, mesmo nos casos onde se diz que tal cão ou gato escolheu esta casa, as pessoas daquela casa decidiram oferecer uma comidinha e uma coberta; eles convidaram aquele animal a escolher aquela casa…

Informar as pessoas sobre as necessidades dos animais de estimação; conscientizar que um animal de estimação tem seu comportamento nato; que deverá viver por 10, 12, 20 anos… é essencial para o bom convívio entre animais e pessoas.

O convívio com animais é salutar. Isso é comprovado pela ciência. Pessoas que convivem com animais têm menos depressão; menos risco de ataques cardíacos. Crianças que convivem com animais desenvolvem mais o afeto; crescem menos agressivas; desenvolvem a capacidade de dividir mais precocemente.

Os animais estão envolvidos em um sem número de programas de reabilitação de enfermos em hospitais; clínicas de recuperação de adictos; clínicas de reabilitação de incapacitados…

Os animais nos fazem bem. Nós os tiramos de seu ambiente há milhares de anos e, ao longo de todos esses milênios reformamos seu comportamento e seu caráter. Hoje tanto eles quando nós somos dependentes dessa relação. Cabe a nós, promotores desse relacionamento e mais inteligentes, buscar ferramentas e meios para que eles não sofram em decorrência dessa nossa atitude humana.

Não estou pregando aqui que todos os cães voltem a ser selvagens. Seria uma afronta a todos os dados que compilei e à inteligência de tantos.

Prego que busquemos educar as pessoas; mostrar que o convívio entre pessoas, animais e o resto do ambiente pode ser saudável e duradouro por mais milhares e milhares de anos. Que as pessoas podem aprender e desenvolver seu afeto e amizade, para com as outras pessoas inclusive, cuidando com responsabilidade de seus animais de estimação e seu ambiente.

 

ibanezFernando Ibañez é professor da Universidade Federal do Paraná, médico veterinário especializado em ortopedia, presidente da Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais de São Paulo e responsável pelas duas unidades do Hospital Veterinário Público de São Paulo.

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