Monday 18th December 2017,
Veterinário Fernando Ibanez

PORQUE CASTRAR SEUS ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO?

admin 30/06/2014 artigos No Comments
PORQUE CASTRAR SEUS ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO?

Por Fernando Ibanez

Ao longo dos últimos 20-30 anos tem havido grande preocupação e incentivo para as pessoas castrarem seus cães e gatos de estimação.

Não vou abordar aqui as questões filosóficas das razões que motivam esse incentivo porque isso já foi abordado em outro texto (PROTEÇÃO ANIMAL). Assim, vou focar as questões médicas da castração.

 

A castração nas cadelas e gatas

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Existe uma crença popular de que cadelas e gatas devem ter ao menos uma gestação ao longo de suas vidas. Isto é um mito e mentira. Elas podem viver muito bem sem nunca se reproduzirem.

Há basicamente 3 momentos em que as cadelas e gatas podem ser castradas:

-      logo após o nascimento e antes da puberdade: esse procedimento é também chamado de castração precoce e deve ser realizado bem cedo, entre 2 e 4 meses de vida, em geral.

-      antes do primeiro cio: este procedimento é chamado de castração pré-púbere e deve ser realizado antes do primeiro cio. O momento que antecede o primeiro cio é relativamente incerto.  O primeiro cio ocorre, geralmente entre o 6º e 18º mês de vida da maioria das cadelas e gatas. Raças de cães de maior porte tendem a ter o primeiro cio mais cedo e raças de cães de menor porte tendem a apresentar o primeiro cio mais tarde.

-      depois do primeiro cio: este procedimento também é chamado de castração tardia. Mesmo tardia, quando realizada entre o primeiro e o segundo cio a castração também pode trazer benefícios às cadelas, especialmente.

 

Mas porque castrar fêmeas?

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Além do fato de não ter gestações indesejadas, existem indicações médicas para a castração.

Há milênios atrás, quando os cães eram selvagens, e, mesmo hoje, entre canídeos selvagens, o tempo de vida desses animais era muito menor do que vemos hoje. O mesmo ocorre com os felinos. O processo de seleção durante a domesticação e desenvolvimento das raças pode ter também selecionado genes que predispõem o surgimento de enfermidades hormônio dependentes.          O aumento na expectativa de vida também dá chance para que os hormônios sexuais atuem por longos períodos sobre os tecidos, permitindo o aparecimento de enfermidades que na natureza não teriam tempo de se manifestar devido ao curto tempo de vida.

O fato é que nas cadelas e gatas domésticas (nas gatas menos), a ocorrência de tumores de mama, ovários e infecções uterinas é muito grande. Pode-se afirmar, de forma grosseira, que toda cadela apresentará algum nódulo de mama ao longo de sua vida; a menos que ela morra de outra doença antes desse nódulo aparecer.

Nas gatas a ocorrência de tumores de mama é menor; mas grande também.

Sabe-se também que mais de 55% dos tumores mamários nas cadelas e 95% nas gatas é maligno e o poder de metástase muito grande.

Os quadros de infecção uterina também são mais frequentes nas cadelas que nas gatas e constituem-se em doenças graves que causam grande risco de morte.

Além desses assustadores motivos, outros menos graves como as alterações do comportamento durante o cio (mais acentuadas nas gatas) e a “sujeira do sangramento” (mais presente nas cadelas), também são justificativas para a castração das fêmeas.

E como a castração ajuda então?

Em relação à sujeira e alterações do comportamento, cadelas e gatas castradas nunca mais vão entrar no cio. A sujeira e a “miadeira” do cio desaparecem completamente.

Em relação às infecções uterinas, também, com a castração, anula-se qualquer chance de ocorrerem, visto que o útero é removido junto com os ovários, o que também acaba com as chances do desenvolvimento de tumores de ovários.

E, em relação aos tumores da mama, dependendo da época em que ocorra a castração, pode-se reduzir em até 98% a chance de uma cadela ter essa doença.

Cadelas castradas antes do primeiro cio têm reduzidas em cerca de 98% as chances de desenvolverem tumores mamários durante suas vidas; aquelas castradas entre o primeiro e o segundo cio têm reduzidas essas possibilidades em cerca de 77% e aquelas castradas depois do segundo cio praticamente têm as mesmas possibilidades de uma cadela não castrada de desenvolver tumor de mama ao longo da vida.

Entretanto, mesmo castrada depois do segundo cio há vantagens. Caso essa cadela, castrada depois do segundo cio, apresente tumor de mama, as metástases e outros nódulos que eventualmente surjam, terão seu desenvolvimento mais lento que em cadelas castradas no momento da descoberta do tumor.

Sobre o momento da castração também há divergências entre pesquisadores.

Com a crescente preocupação em relação ao grande número de animais abandonados nas ruas um grupo de seguidores sugeriu que as cadelas fossem castradas logo após o desmame, antes de irem para as casas de suas futuras famílias. Isso diminuiria o numero de gestações indesejadas e de abandono. Surgiram os estudos sobre castração precoce.

A castração precoce não causa danos importantes mas não é inócua. Cadelas castradas tão cedo e que passam toda a fase de desenvolvimento rápido sem a interferência dos hormônios sexuais têm mais chances de serem obesas na vida adulta; crescem mais do que aquelas que permanecem com suas gônadas; demoram mais tempo para fecharem os núcleos de crescimento dos ossos, o que predispõe a fraturas mais do que cadelas não castradas; permanecem com a vulva infantil, o que predispõe ao aparecimento de dermatites peri vulvares. Exceto pela obesidade, que pode ter consequências importantes na vida adulta, todos os outros problemas, além de não ocorrerem sempre, podem ser perfeitamente contornados.

A justificativa da recomendação da castração precoce é que fica mais fácil de criar leis que obriguem que os filhotes já sejam vendidos castrados pelos criadores.

Existe a possibilidade de permitir que a cadela se desenvolva sob os efeitos dos hormônios sexuais até o período em que eles começariam a agir mais fortemente e definir a transição entre o infantil e o adulto. A castração nesse momento é chamada de castração pré-púbere, e é realizada um pouco antes do primeiro cio.

Descobrir quando será o primeiro cio de uma cadela ou de uma gata não é impossível mas também não é corriqueiro. Assim, estima-se que a castração pré-púbere possa ser realizada com segurança em um período que se situe entre o 6º e 8º meses de vida. Mais cedo nas cadelas de porte maior e mais tarde nas cadelas de porte menor.

A justificativa para a castração pré-púbere é que o maior crescimento da grande maioria dos cães ocorre entre o nascimento e o 4º-6º meses de vida. Durante esta fase os cães e gatos crescem cerca de 80% de seu tamanho normal. Permitir que esta fase do crescimento ocorra sob a interferência dos hormônios sexuais favorece a determinação de características de adulto ao animal; diminui o risco de obesidade na vida adulta e continua contribuindo para diminuir o risco das enfermidades relacionadas ao trato reprodutivo das cadelas. O ponto ruim da recomendação da castração pré-púbere é que ela depende da iniciativa dos tutores. Nesta etapa da vida a maioria dos filhotes já foi adotada e não está mais no criatório.

 

A Castração nos cães e gatos machos

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Os benefícios da castração nos cães e gatos envolvem alterações do comportamento (diminui a ânsia de demarcar território; reduz as brigas entre machos da mesma casa); diminuição do risco de doenças prostáticas; diminuição do risco de tumores do períneo e dos testículos.

Nos machos a castração também pode acontecer logo após o desmame (castração precoce), antes da puberdade (castração pré-púbere) ou depois da puberdade.

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O momento da castração no macho, ao contrário das fêmeas, não interfere nas chances de apresentarem os tumores hormônio dependentes. Entretanto, interfere no efeito sobre o comportamento e sobre algumas complicações decorrentes da castração precoce no gato.

Gatos castrados muito cedo, assim como fêmeas castradas muito cedo, apresentam maior tendência à obesidade e também desenvolvem genitália infantil. Nos gatos a obesidade associada ao sedentarismo e a outros fatores pode resultar em uma doença do trato urinário que, associada ao pênis infantil, pode ser mais difícil de tratar que em machos adultos ou que possuem genitália normal. Assim, nos gatos é preferencial que a castração ocorra quando terminarem ou estiverem próximos de terminar seu desenvolvimento corpóreo (6º – 10º mês de vida).

Sobre o efeito da castração no comportamento de demarcar território, animais castrados muito tarde (já adultos ou velhos), especialmente gatos, podem persistir com seu comportamento de macho dominante. Não é raro encontrar cães e gatos castrados adultos que continuam brigando, demarcando território e alguns animais, especialmente gatos, que inclusive copulam; mesmo castrados.

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE AS CIRURGIAS DE CASTRAÇÃO

A castração nas fêmeas é um procedimento mais invasivo que nos machos. Toda castração envolve anestesia geral.

Por se tratar de um procedimento eletivo (que o proprietário e o veterinário decidem quando vai ser), é de se esperar que todo animal que será submetido a castração esteja em excelente estado de saúde e, portanto, os riscos anestésicos são bem pequenos.

A castração na fêmea é um procedimento mais invasivo e doloroso que nos machos. Mesmo com técnicas minimamente invasivas, nas cadelas para se fazer a castração é necessário abrir o abdome e manipular vísceras (ainda que bem pouco); o que provoca mais dor pós operatória que nos machos. Mesmo assim, quando realizada de forma adequada e por profissional experiente e com apoio de anestesistas e controle de dor os animais recuperam-se extraordinariamente bem e é frequente ver cadelas e gatas castradas há 36-48 horas com comportamento perfeitamente normal.

Nos machos a castração também requer anestesia geral mas a cirurgia é muito mais superficial. É feita apenas uma pequena incisão na pele, próximo ao escroto. Mesmo sendo um procedimento mais simples e superficial os cuidados com a experiência do profissional, equipe e suporte devem ser observados. Não é raro encontrar machos castrados displicentemente com sérias complicações e que infelizmente acabam morrendo por conta delas.

A crença de que os animais precisam cruzar para não terem tumores ou para qualquer outra afirmação é lenda! Animais, assim como seres humanos, podem passar a vida toda sem copular e não vão morrer mais cedo ou mais tarde por causa disso. Fato é que eles, os cães e gatos, não se apaixonam e não têm discernimento sobre o melhor momento de produzirem uma ninhada. O que quer dizer que sempre que um macho não castrado encontrar uma fêmea no cio eles vão copular; e, especialmente no caso das gatas, é quase 100% certo que ela vai engravidar.

As cadelas ovulam conforme o tempo do ciclo; o que condiciona a gravidez ao momento correto da cópula. Ou seja, caso a cadela cruze com um cão no momento errado é possível que não engravide. As gatas possuem um mecanismo chamado de ovulação induzida: no momento da cópula há o estímulo para a liberação do óvulo e o cio cessa. Nas gatas, a cópula é quase certeza de gestação.

Um outro mito ou costume é que há muito mais resistência, talvez por nossa sociedade tendendo ao machismo, em se castrar machos. A proporção de fêmeas castradas, em relação aos machos é muito maior. Os cães e gatos não exercem sua masculinidade ou feminilidade durante suas relações, exceto quando disputam território ou fêmeas no cio.

Ainda que possa parecer assustador para alguns leigos, a castração traz muitos benefícios aos animais e suas famílias.

Alguns pregam que isso é uma invasão na vida dos animais, que castrá-los impede que exerçam plenamente seu comportamento; mas trazê-los para dentro de nossas casas não foi uma invasão? Pô-los sobre carpetes e porcelanatos não foi uma invasão? Selecionar raças completamente deformadas ou sem pelos não foi uma invasão?

Não estou defendendo que deveríamos ter deixado os cães e gatos nas florestas. Eles fazem parte do convívio humano há milênios; mas já que interferimos trazendo-os para perto de nós, porque não tentar interferir para que vivam melhor perto de nós? E castrá-los pode ajudar; para melhor.

 

 

 

 

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