Monday 18th December 2017,
Veterinário Fernando Ibanez

DISPLASIA COXO FEMORAL – O que é e como evitar

admin 19/07/2013 artigos No Comments
DISPLASIA COXO FEMORAL – O que é e como evitar
Prof. Dr. José Fernando Ibañez Universidade Estadual do Norte do Paraná – UENP ibanez@uenp.edu.brclique aqui

A displasia coxo femoral (DCF) é uma enfermindade cuja manifestação resulta da combinação de genes predisponentes para a enfermidade e interação com ambiente. Isto quer dizer que mesmo que um animal tenha genes para desenvolver a enfermidade pode ser que, dependendo do tipo de ambiente em que ele viver, esta não se desenvolva e ele nunca apresente manifestações da doença. Acredita-se que a contribuição do ambiente na manifestação da DCF seja de 50% aproximadamente.

A determinação genética da DCF decorre de vários genes ainda não completamente mapeados que determinam, dentre outras coisas, maior flacidez dos tecidos de sustentação da articulação coxo femoral.

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A maior lascitude da articulação durante a fase de crescimento determina maior mobilidade da cabeça femoral dentro do acetábulo durante o passo.

Inicialmente há uma sobrecarga da cápsula articular, constantemente “tensionada” pela cabeça femoral e podem ocorrer pequenas fissuras do labrum (borda cartilaginosa da porção dorso-cranial acetabular).

A constante solicitação da cápsula articular e tensionamento do ligamento femoral culminam com sinovite crônica e pode haver dor. Nesta fase da enfermidade ainda não há alterações morfológicas ósseas importantes; o que significa que os achados radiográficos podem ser pouco elucidativos. Ainda assim, dependendo da gravidade da doença podem ser observados sinais radiográficos importantes em animais bem jovens.

Com o processo crônico inflamatório articular e a má adaptação da cabeça femoral ao acetábulo iniciam-se as deformações ósseas que serão responsáveis pelos achados radiográficos mais tardios (espessamento do colo femoral; deformação da cabeça femoral; enteseófitos; osteófitos peri-articulares, etc….)

A única forma de se erradicar a DCF é impedindo o acasalamento de animais portadores da enfermidade; contudo, ainda que só sejam acasalados animais radiograficamente isentos de DCF, como dito antes, pode haver indivíduos geneticamente displásicos sem manifestações clínicas. Estima-se que 7% dos animais nascidos de indivíduos clinica e radiograficamente sem displasia possam apresentar a enfermidade clínica/ radiografica.

Estudos mostram também que a redução na ingestão de carboidratos na infância diminui a ocorrência de apresentação clínica da DCF na idade adulta. Provavelmente por prevenir o sobrepeso e impedir a degeneração do colágeno associada à ingestão de grandes quantidades de açúcares.

O diagnóstico definitivo da doença DCF se dá pelo exame radiográfico, na idade adulta, que evidencia as alterações ósseas já mencionadas. A projeção mais indicada para o exame da congruência articular coxo femoral é a ventro-dorsal, em posicionamento preconizado pela OFA (Orthopedic for Animals); em que o animal anestesiado é posicionado em decúbito dorsal e tem os membros pélvicos tracionados e rotacionados medialmente para se obter a imagem ideal: tuberosidades isquiáticas cobertas pelo fêmur; fêmores paralelos; patelas posicionadas dentro das trócleas no centro dos côndilos; foramens obturados simétricos.

Existem atualmente ferramentas diagnósticas com grande valor preditivo acerca da manifestação clínica da DCF. Estem métodos são capazes de, através do grau de lascitude articular do animal jovem, prever com grande acurácia, quais pacientes desenvolverão doença articular degenerativa na vida adulta. A constatação de articulações instáveis na infância propicia a aplicação de algumas técnicas que podem aumentar o grau de recobrimento e captura da cabeça femoral e diminuir os danos da incongruência.

Os testes de flacidez articular mais praticados são o PennHip e o Índice de deslocamento Dorso Lateral Femoral.

Quando disganosticados como possuidores de articulações com mais grau de flacidez que o normal, os animais podem ser submetidos a uma cirurgia chamada Sinfisiodese Púbica.

A sinfisiodese púbica consiste na infração de um trauma na linha de crescimento do púbis, provocando seu fechamento precoce. Com o púbis fechado e o restante da pelve se desenvolvendo esta passa a crescer mais lateralmente, especialmente em seu aspecto dorsal, aumentando o grau de captura e recobrimento da cabeça femoral pelo acetábulo.  Por contar com o desenvolvimento da pelve e por este desenvolvimento cessar cedo durante o desenvolvimento, a janela de aplicação da sinfisiodese púbica ideal situa-se entre os 4 e 5 meses de vida. Alguns países adotam a sinfisidese púbica como preventivo nas raças predispostas, no momento em que são castrados quando filhotes.

uma outra técnica que aumanta a captura e o recobrimento da cabeça femoral pelo acetábulo é a Osteotomia Tripla da Pelve; ou Osteotomia dupla da pelve. Nas duas técnicas a pelve é cortada na altura do ílio e do ísquio, liberando o segmento acetabular da pelve. O púbis pode ser (Osteotomia Tripla da Pelve) ou não (Osteotomia dupla da pelve) cortado. Depois de liberado o segmento acetabular é rotacionado lateralmente sobre a cabeça femoral e fixado ao ilio por meio de placa. Por se tratar de técnicas que aumentam o contado da cartilagem acetabular articular com a cartilagem da cabeça femoral é importantíssimo que, por artroscopia, a integridade das mesmas seja atestada. Aumentar o contato de duas porções de cartilagem enferma só propicia a DAD e causa mais dor.

A Osteotomia tripla da pelve também tem alto índice de complicações sendo a principal, soltura do implante. Com o advento das placas bloqueadas o numero de acidentes deste tipo diminuiu consideravelmente; ainda assim é uma cirurgia bastante invasiva, com grande curva de aprendizado e que permite, por sua janela de aplicação, correção de apenas um lado.

Alternativa definitiva no tratamento da DCF é a prótese total do quadril. Consiste na substituição, por material sintético, do colo femoral, cabeça femoral e acetábulo. Existem dois tipos de próteses:

-  Cimentada: são próteses que ficam presas ao fêmur e ao acetábulo por meio de cimento ósseo. O cimento não adere ao osso ou à prótese; servindo como uma interface que preenche o espaço entre a prótese e o osso, retendo-se por atrito às irregularidades do canal e paredes ósseas. Com o estresse do movimento e remodelamento ósseo constante, sua soltura pode ocorrer em tempo reduzido. Há, entretanto, alguns casos pontuais em que a colocação deste tipo de prótese é indicado; entretanto, seu uso vem perdendo popularidade.

-  Não cimentada: são próteses que se fixam ao osso por atrito ou são parafusadas no osso. Estas próteses possuem recobrimentos que permitem que o osso cresça na prótese, promovendo osteointegração da mesma.

Próteses, quando bem indicadas e bem instaladas apresentam resultado muito satisfatório, com reabilitação completa do paciente. No Brasil seu custo ainda é elevado e não há ainda próteses de fabricação nacional disponíveis para instalação. O futuro é promissor e animador. Em pouco tempo haverá próteses de muito boa qualidade para instalação, fabricadas em território nacional.

A curva de aprendizado para próteses totais de quadril é grande e demorada. O profissional tem que participar de cursos e treinamentos e praticar por longos períodos antes de se aventurar no mundo das próteses.

Em um grande número de casos a DCF evolui para doença articular degenerativa. Neste estágio, a única intervenção que poderia restabelecer completamente o paciente seria a prótese. Assim, tratamentos paliativos podem ser indicados. Dentre os existentes, dois cirúrgicos:

-  Ressecção da cabeça e colo femorais: trata-se da remoção cirúrgica do colo e cabeça femorais. Ao remover estas partes do fêmur a articulacão coxo femoral deixa de existir e não há mais degeneração. É um procedimento simples quando o profissional é treinado. Uma complicação desta cirurgia é que, dependendo do grau de atrofia muscular do paciente, e do peso, pode ocorrer de o paciente nunca mais apoiar o membro. Em alguns casos a reabilitação demanda várias sessões de fisioterapia e intensa dedicação dos tutores para restabelecer a deambulação.

-  Denervação da cápsula articular: sabe-se que grande parte da dor gerada na displasia coxo femoral é decorrente da estimulação nociceptiva da cápsula articular; é sabido também que as fibras que inervam esta estrutura derivam dos nervos femoral e glúteo e chegam à cápsula através do periósteo peri-acetabular, especialmente em suas porções cranial e dorsal. A denervação da cápsula articular acetabular consiste então do desbaste do perósteo dessas áreas, dessensibilizando a cápsula articular e permitindo deambulação sem dor ao paciente.

O tratamento da DCF avançada tem que ser multifatorial. Como qualquer enfermidade degenerativa articular devem ser observados 3 fatores para se obter bons resultados:

-  tratamento farmacológico

Dentre os fármacos disponíveis para o tratamento da doença articular degenerativa podem ser incluídas 3 classes de medicamentos:

- analgésicos: para o controle da dor

-  AINEs: para o controle da dor

-  Nutracêuticos: geralmente à base de ácido hiaurônico, condroitina e outros microelementos como sulfatos, magnésio e cobre, são utilizados como adjuvantes na tentativa de diminuir a taxa de degradação da matriz hialina e aumentar a taxa de reparação. Seu uso também diminui a liberação de fatores pró inflamatórios dentro da articulação.

-  perda de peso

A perda de peso diminui o impacto sobre o osso subcondral desprovido de cartilagem hialina articular, reduz a sensibilidade dolorosa e diminui a ocorrênia de microfraturas do osso subcondral. As microfraturas são importante porque além de ocasionarem dor, podem, durante o processo e reparação, produzir pequenos calos ósseos que resultam em irregularidade da superfície articular aumentando o trauma.

-  atividade física

Sinóvea de boa qualidade só pode ser obtida durante atividade da cápsula articular. O tratamento da doença articular tem que englobar atividades que mantenham a amplitude de movimento e produção de sinóvea sem incrementar o impacto sobre a superfície articular.

Finalmente há que se conscientizar que a DCF é enfermidade importante nos ães e gatos e não tem cura. Tem caráter bastante incapacitante e precisa de atenção non sentido de se remover da reprodução os animais portadores para reduzir a ocorrência.

 

 

 

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